novembro 29, 2011

Para ler ao som de Vinicius de Moraes

Conheci o Rio de Janeiro em 1968. Tarde demais, pensei na época. Já não havia o Cassino da Urca, estrelas de cinema deixando o decote cair nos bailes do Copa ou reuniões de bossa nova na Rua Nascimento e Silva cento e sete cantadas por Vinícius de Moraes. Troppo, troppo tardi eu pensava em italiano por influência talvez de Gina Lollobrigida, vadiando encantado por Ipanema com Maria Helena Cardoso, a Leleninha, irmã do Lúcio Cardoso e autora de uma das mais belas autobiografias publicadas neste país (Por onde andou meu coração?, quem lembra?).

O que eu não sabia nem poderia saber — em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro — é que embora parecesse tarde, era ainda cedo. Que paraíso aquela cidade maravilhosa pouco antes da paranóia do AI-5, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! e quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt (onde andará Zama, a surrealista da Zona Norte?), largar roupa e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes — e limpas — do Leblon. Era possível sim, tudo de bom lá naquele tempo e naquela cidade.

Foi nessa mesma época que Gilberto Gil enviou aquele puta abraço pra todo mundo, garantindo que o Rio de Janeiro continuava lindo. Era cedo portanto, e eu não sabia. Ninguém sabia. Afinal, estávamos ainda mergulhados na poetização da miséria pelo cinema-novo (preciso rever Cinco vezefavela) deflagrada por Orfeu negro, no charme da lata d’água na cabeça que dera lugar ao cantinho, ao violão, garotas de Ipanema ondulantes e Brigitte Bardot tomando água de coco em Búzios. Ó Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente.

Irremediável — eu sei que é uma palavra terrível, mas é a que me vem quando comparo aquele Rio a este de agora, e isso me dói tanto quanto uma doença fatal — irremediável irremediável repito sem vírgula sentindo saudade prévia do Rio como de um amigo em fase terminal. E sem ser sociólogo nem historiador, tento entender como tudo começou. Quem sabe com a própria poetização da miséria, o câncer medonho crescendo escondido enquanto todo o mundo achava bonitinho o moleque de morro pedindo dinheiro. Nem escola, saúde ou comida, um troquinho, quem sabe um sambinha e tudo bem, um barquinho a deslizar. Até que o moleque armou-se até os dentes para comandar arrastões outros que não os de Elis. O único parâmetro de dar-certo-na-vida que um moleque favelado tem atualmente é ser traficante, e ser então bacana: vídeo, CD e metralhadora para matar, que a vida não vale nada. Chacrinha já não balança a pança e o Rio de Janeiro virou um horror, graças aos governantes que não investiram no trabalho básico de educar, dar opções devida além da marginalidade sangrenta. Graças também a nós, que não vimos a tempo.

O que querem agora, quando é tarde demais, esses que pretendem “dar um jeito na situação”? Tanques nas favelas, quem sabe napalm? Telefona aí pro BilI Clinton e pede uma intervençãozinha rápida, garanto que ele vai achar o Haiti moleza... Como nas doenças incuráveis, só resta rezar? Ou cantar, que é quase a mesma coisa. Então por favor, rezem, cantem pela cidade do Rio, leiam Cidade partida de Zuenir Ventura, com a assustadora epígrafe de Arnaldo Jabor: “O Rio é o trailer do Brasil”. Façamos coisas inúteis e delicadas, suspirando em memória de Vinícius: “que tempo feliz, ai que saudade, esse Rio que se perdeu, mesmo a tristeza da gente era mais bela, era como se o amor doesse em paz”.


Caio Fernando Abreu

novembro 02, 2011

Uma vez não chega

Esta a acontecer como quase todos os dias
A troca de olhares.
O coração a disparar.
O calafrio.
O sorriso disfarçado.
Os mesmos pequenos sinais de sincronia que bailam no ar
Quase sempre como um sopro suave de uma canção antiga e saudosista
E como parecemos ridículos
Fingindo estar,
fingindo não pensar,
fingindo entender,
fingindo não sentir,
fingindo não se importar.
Vivendo o mesmo sentimento contido
E fingindo.
E dois corações rumando para o mesmo sentido
Mesmo sem perceber..
Mais indo.

julho 14, 2011

Claquete

Dormiria a pensar em cada detalhe de sua vida pífia e minúscula
Em cenas ridículas que ela mesma criara sobre decepções
Talvez com mais drama do que de costume
Mas no peito a mesma dor
Uma dor intrínseca, que ardia e modificava-a
E algumas mágoas que lhe arrancara o sono.

Balbucias noturnas

Quero deleitar-me.
Acordar e sorrir por motivo algum.
Respirar fundo e acreditar que tudo ficara bem,
Mesmo que o tempo mostre-me o contrario.
Afinal, o sol sempre acaba por aparecer
O sol sempre aparecerá...

maio 13, 2011

- Seja meu amor.
- Seja, meu amor.
- Seja meu, amor.
Enquanto ainda faz sentido. 

Calejada

Estranho saber que quilômetros suportam tantos sentimentos incompletos.
Ele continua a invadir-me os sonhos
Como a quem procura corações para partir.
E eu finjo que ele é tudo o que eu procurava...
Até o dia amanhecer.

março 15, 2011

Li palavras iguais

E embora tenha dor no meu peito
Ainda resistirei a sua falta
E a sua incompreensão diante do meu ciúme
Regurgitarei ao vento todas as suas teimas e as suas dispersões
Não costurarei a dormir como outrora o fizera
Terei crises existenciais e a culpá-lo-ei
Omitindo todo o sentimento de tristeza e arrependimento
Choramingando a cada vez que recobrar lembranças de peripécias e cumplicidade
E rirei desta cena ridícula a mim protagonizada
Rindo e arrependendo-me
Da mesma forma que ainda a amo. 

março 10, 2011

Agora que meu dia acabou

E que pulasse e se partisse em mil pedaços
Eu nao me importaria, nunca me importei.
Ouvia Billie Holiday e fumava o resto do ultimo cigarro da manhã
E indagava-me sobre as minhas escolhas
Sobre você e sobre como havia-me deixado estar aqui
fumando e indagando-me
E a vida parecia ironicamente fatidica.
E eu nao me importava, nao me importava...

fevereiro 24, 2011

Nota #1

Seria exorbitante afirmar que a confiança é algo primordial
Se a mesma se mostra tão instável e decepcionante
Culparemos então todos os laços afetivos existenciais
Ou nos envolveremos em uma enorme fenda de culpa e repugnancia
Cortando laços e morrendo aos poucos.

dezembro 05, 2010

Nóis - Catia Andrea Cernov

Dizem que nóis é passivo, atrasado... É vagabundos. Que nóis só qué samba, carnaval, chutar bola e ver os peitos da mulata gostosa balançar. É... nóis qué que a coisa acabe em pizza! Ah! Mas o que nóis não qué é interceptar mísseis Scud na Ásia, vistoriar armas químicas no Oriente, nem fazer jogos de guerra com o mundo... muito menos assistir ao estupro das negras peitudas e gostosas na África. Não! Nóis acha mais legal ser da “miscigenação livre”, do sangue bom. Acham que para nóis, do jeito que ta, ta tudo bem. Que não estamos nem aí para fazer nosso trabalho direito. Ah, mas nóis gosta de trabalhar, sim! A gente bem que queria um trampo decente, para render frutos para nossas famílias, vizinhos e amigos. O que nóis não qué é ser explorado, ALCAçados e transformados em óleo para lubrificar a máquina de fazer dinheiro dos outros! Acreditam que nóis não sabe plantar direito, não sabe fabricar coisa decente e fazemos muamba. Bem que a gente queria plantar e produzir como os outros. Ah, mas nóis também não qué transformar nosso chão numa máquina de devastar florestas e escravizar povos (viva Chico Mendes!) Não! Nóis gosta de trabalho com dignidade. E, no final do expediente, um samba na palma da mão e uma cerveja gelada no bodega do Zé. Nóis gosta de biritar, para esquecer o trampo que é duro. Mas nóis não qué controlar as mentes dos povos para que eles nunca se esqueçam do brinde aos lucros dos outros. Também falam que nóis é passivo demais, porque carregamos as pedras nas costas e ainda por cima estamos rindo. Ah, mas a verdade é que nóis preferimos carregar o peso do que empunhar o chicote. Um dia, Deus, que também é brasileiro, vai nos abençoar por isso. Até mesmo porque ele ta de saco cheio de conflitos e guerras. Ele quer é mais curtir seu domingo, jogo do Maracanã, roda de samba e... (mulher ele não pode!). Porque Deus abençoou esta terra para ser a futura potência mundial da paz e solidariedade! E, conforme o Almanaque Abril de dois e não sei o quê, com o mais alto índice de IDP (índice de Desenvolvimento da Paz). É, nóis aqui gosta de paz! Nóis não faz guerra! Nóis é a galera sangue bom! Aqui, nóis também briga com os vizinhos por um pedaço de terreno mal dividido, uma bola que quebrou a vidraça ou a galinha que desapareceu de repente do terreiro. Mas quando o vendaval leva as telhas e a chuva desaba os barracos, nóis acolhe os vizinhos na boa. Divide a sardinha com farinha e toicinho do feijão. O que nóis não faz é detonar os miseráveis “bodes expiatórios de turbantes” com bombas... para depois jogar alimentos e remédios nos pára-quedas. Não precisamos da hipocrisia para limpar a barra diante da opinião do mundo. Não! Pelo contrário... depois do temporal, nóis faz uma vaquinha e comemora tudo junto, com feijoada e um pagode no fundo do quintal. Aqui, as mães solteiras (jovens Marias) são acolhidas nos barracos já apertados. As prostitutas (durante o dia!) são nossas colegas de mesa. O traficante (fora de seu horário de rush) bate uma pelada com a galera. Nóis não ta nem aí pro assunto dos outros. Nóis qué é dividir o campinho com os manos de lá e fazer gol (eis nossa Faixa da Gávea!). Nóis aqui tem preconceito também: “aposto como foi aquele neguinho fedorento que carregou minha sandália!”, “esse argentino ou é muambeiro ou é boiola!”, “aquele japonês safado... aposto que nem sabe quem é o pai dele!”. É... mas na hora em que as enchentes elevam seus níveis de água, nóis junta tudo e esquece o “pobrema”. Fazemos mutirão e carregamos alimentos não perecíveis (viva Betinho!). Reconstruímos os barracos e passamos o Trator da Comunidade pelas ruas interditadas. Até dividimos os cobertores... com pobres, pretos, putas, gringos, gays e japoneses bastardos! O que nóis não faz é sacanear... negar remédios e patentes pros caras, só porque eles são os “pretos do terceiro mundo”. Aids deles! Não! Os neguinhos aqui batem uma bola legal e sacam um rap maneiro! Nóis, ás vezes, tem mania feita de rir da desgraça do próximo. Ah! Mas se o próximo ficar próximo... a gente também chora. Não sabe nem porque, mas chega próximo, divide a dor e a barriga vazia. O que nóis não faz é aproveitar a exploração do próximo em lucros nas Bolsas de Valores do mundo. Apostamos no bicho... não sabemos o que significa Wall Street! Nóis qué é bolsa para nossos filhos levarem livros e cadernos pra escola comunitária. Ás vezes, nóis é ignorante. Deixamos os outros invadirem nossas terras em troca de rádios, votos, tapinhas nas costas, patentes de biodiversidade e espelhos ridículos. Na maioria das vezes, só pra comprar um quilo de feijão. Também adoramos aparecer na televisão. Mas nóis não toma o território e a dignidade de ninguém para garantir ganhos no bolso depois do comercial em horário nobre (viva a novela das oito!). Nóis assiste... mas nóis não têm a intenção de mentir felicidade para nossas meninas na Indústria da Ilusão! Nóis gosta de carro... corrida automobilística (viva Senna!). Mas nóis não qué fazê guerra por petróleo – que fazem as máquinas roncar. Nóis prefere empurrar e ver o carango pegar no tranco do que ver sangue bom derramado na areia do deserto. Nóis não esquenta se o vizinho é católico ou macumbeiro. Padre ou orixá, na hora de comer o pão que o diabo amassou, é tudo igual. O que nóis não qué é matar os caras só porque eles falam com Deus de maneira diferente. Nóis prefere a tolerância do que a ignorância! Sabem de uma coisa? Nóis num é atrasado, passivo ou ignorante coisa nenhuma! Nóis é um povo cheio de esperança! Povo sangue bom! Porque chegará o dia em que os outros se queimarão em suas próprias fogueiras de vaidades. E nóis, os bestas e vagabundos aqui, despertaremos um tal de “Gigante Adormecido”. E, com certeza, plantaremos e produziremos para alimentar o mundo. Não como os outros... mas como nóis!


O texto não é de minha autoria.