Me sinto outra
Mais forte talvez
Ou com um objetivo mais forte do que eu
Algo que explodisse do meu peito e gritasse a meu favor
Revolta, ela exalta com lágrimas nos olhos
É, 2012 só virá como um novo folego de vida
dezembro 03, 2011
dezembro 02, 2011
Como um outro alguém
Acordei como em todas as manhãs
Sorrindo por sonhos de uma realidade inventada sobre amores impossíveis.
E é claro que ele viera a invadir-me mais uma vez
Caminhando como quem procura sorrisos que se encaixem
Dizendo-me planos com grinaldas e crianças a correr
E eu adorava o modo como ele ansiava por isso
Incluindo-me em futuros incertos
Jogando palavras que bailavam no ar
Sem nenhum sentido aparente
E eu não me importava com tantas palavras, apenas observava-o
Os lábios, as mãos, os pés, o ajeitar da camisa
E deixava-me hipnotizar com aquele perfume que me induzia a sonhar mais uma vez.
novembro 29, 2011
Para ler ao som de Vinicius de Moraes
Conheci o Rio de Janeiro em 1968. Tarde demais, pensei na época. Já não havia o Cassino da Urca, estrelas de cinema deixando o decote cair nos bailes do Copa ou reuniões de bossa nova na Rua Nascimento e Silva cento e sete cantadas por Vinícius de Moraes. Troppo, troppo tardi eu pensava em italiano por influência talvez de Gina Lollobrigida, vadiando encantado por Ipanema com Maria Helena Cardoso, a Leleninha, irmã do Lúcio Cardoso e autora de uma das mais belas autobiografias publicadas neste país (Por onde andou meu coração?, quem lembra?).
O que eu não sabia nem poderia saber — em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro — é que embora parecesse tarde, era ainda cedo. Que paraíso aquela cidade maravilhosa pouco antes da paranóia do AI-5, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! e quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt (onde andará Zama, a surrealista da Zona Norte?), largar roupa e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes — e limpas — do Leblon. Era possível sim, tudo de bom lá naquele tempo e naquela cidade.
Foi nessa mesma época que Gilberto Gil enviou aquele puta abraço pra todo mundo, garantindo que o Rio de Janeiro continuava lindo. Era cedo portanto, e eu não sabia. Ninguém sabia. Afinal, estávamos ainda mergulhados na poetização da miséria pelo cinema-novo (preciso rever Cinco vezefavela) deflagrada por Orfeu negro, no charme da lata d’água na cabeça que dera lugar ao cantinho, ao violão, garotas de Ipanema ondulantes e Brigitte Bardot tomando água de coco em Búzios. Ó Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente.
Irremediável — eu sei que é uma palavra terrível, mas é a que me vem quando comparo aquele Rio a este de agora, e isso me dói tanto quanto uma doença fatal — irremediável irremediável repito sem vírgula sentindo saudade prévia do Rio como de um amigo em fase terminal. E sem ser sociólogo nem historiador, tento entender como tudo começou. Quem sabe com a própria poetização da miséria, o câncer medonho crescendo escondido enquanto todo o mundo achava bonitinho o moleque de morro pedindo dinheiro. Nem escola, saúde ou comida, um troquinho, quem sabe um sambinha e tudo bem, um barquinho a deslizar. Até que o moleque armou-se até os dentes para comandar arrastões outros que não os de Elis. O único parâmetro de dar-certo-na-vida que um moleque favelado tem atualmente é ser traficante, e ser então bacana: vídeo, CD e metralhadora para matar, que a vida não vale nada. Chacrinha já não balança a pança e o Rio de Janeiro virou um horror, graças aos governantes que não investiram no trabalho básico de educar, dar opções devida além da marginalidade sangrenta. Graças também a nós, que não vimos a tempo.
O que querem agora, quando é tarde demais, esses que pretendem “dar um jeito na situação”? Tanques nas favelas, quem sabe napalm? Telefona aí pro BilI Clinton e pede uma intervençãozinha rápida, garanto que ele vai achar o Haiti moleza... Como nas doenças incuráveis, só resta rezar? Ou cantar, que é quase a mesma coisa. Então por favor, rezem, cantem pela cidade do Rio, leiam Cidade partida de Zuenir Ventura, com a assustadora epígrafe de Arnaldo Jabor: “O Rio é o trailer do Brasil”. Façamos coisas inúteis e delicadas, suspirando em memória de Vinícius: “que tempo feliz, ai que saudade, esse Rio que se perdeu, mesmo a tristeza da gente era mais bela, era como se o amor doesse em paz”.
Caio Fernando Abreu
O que eu não sabia nem poderia saber — em parte porque aos 20 anos a gente pouco sabe além da própria fome, em parte porque não podia, nem posso ou podemos, prever o futuro — é que embora parecesse tarde, era ainda cedo. Que paraíso aquela cidade maravilhosa pouco antes da paranóia do AI-5, quando era possível passar noites a fio bebendo chope no Zeppelin vendo entrar Leila Diniz, nossa, como ela é baixinha, olha, meu Deus, a Nara Leão! e quem chegou de jipe com Betty Faria não será o Arduíno Colassanti? Possível sentar à noite no murinho da Alberto de Campos fumando com Isabel Câmara, varar madrugada nas galerias de Copacabana com meu primo e guru Francisco Bittencourt (onde andará Zama, a surrealista da Zona Norte?), largar roupa e dinheiro na areia para mergulhar nas ondas verdes — e limpas — do Leblon. Era possível sim, tudo de bom lá naquele tempo e naquela cidade.
Foi nessa mesma época que Gilberto Gil enviou aquele puta abraço pra todo mundo, garantindo que o Rio de Janeiro continuava lindo. Era cedo portanto, e eu não sabia. Ninguém sabia. Afinal, estávamos ainda mergulhados na poetização da miséria pelo cinema-novo (preciso rever Cinco vezefavela) deflagrada por Orfeu negro, no charme da lata d’água na cabeça que dera lugar ao cantinho, ao violão, garotas de Ipanema ondulantes e Brigitte Bardot tomando água de coco em Búzios. Ó Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente.
Irremediável — eu sei que é uma palavra terrível, mas é a que me vem quando comparo aquele Rio a este de agora, e isso me dói tanto quanto uma doença fatal — irremediável irremediável repito sem vírgula sentindo saudade prévia do Rio como de um amigo em fase terminal. E sem ser sociólogo nem historiador, tento entender como tudo começou. Quem sabe com a própria poetização da miséria, o câncer medonho crescendo escondido enquanto todo o mundo achava bonitinho o moleque de morro pedindo dinheiro. Nem escola, saúde ou comida, um troquinho, quem sabe um sambinha e tudo bem, um barquinho a deslizar. Até que o moleque armou-se até os dentes para comandar arrastões outros que não os de Elis. O único parâmetro de dar-certo-na-vida que um moleque favelado tem atualmente é ser traficante, e ser então bacana: vídeo, CD e metralhadora para matar, que a vida não vale nada. Chacrinha já não balança a pança e o Rio de Janeiro virou um horror, graças aos governantes que não investiram no trabalho básico de educar, dar opções devida além da marginalidade sangrenta. Graças também a nós, que não vimos a tempo.
O que querem agora, quando é tarde demais, esses que pretendem “dar um jeito na situação”? Tanques nas favelas, quem sabe napalm? Telefona aí pro BilI Clinton e pede uma intervençãozinha rápida, garanto que ele vai achar o Haiti moleza... Como nas doenças incuráveis, só resta rezar? Ou cantar, que é quase a mesma coisa. Então por favor, rezem, cantem pela cidade do Rio, leiam Cidade partida de Zuenir Ventura, com a assustadora epígrafe de Arnaldo Jabor: “O Rio é o trailer do Brasil”. Façamos coisas inúteis e delicadas, suspirando em memória de Vinícius: “que tempo feliz, ai que saudade, esse Rio que se perdeu, mesmo a tristeza da gente era mais bela, era como se o amor doesse em paz”.
Caio Fernando Abreu
novembro 02, 2011
Uma vez não chega
Esta a acontecer como quase todos os dias
A troca de olhares.
O coração a disparar.
O calafrio.
O sorriso disfarçado.
Os mesmos pequenos sinais de sincronia que bailam no ar
Quase sempre como um sopro suave de uma canção antiga e saudosista
E como parecemos ridículos
Fingindo estar,
fingindo não pensar,
fingindo entender,
fingindo não sentir,
fingindo não se importar.
Vivendo o mesmo sentimento contido
E fingindo.
E dois corações rumando para o mesmo sentido
Mesmo sem perceber..
Mais indo.
A troca de olhares.
O coração a disparar.
O calafrio.
O sorriso disfarçado.
Os mesmos pequenos sinais de sincronia que bailam no ar
Quase sempre como um sopro suave de uma canção antiga e saudosista
E como parecemos ridículos
Fingindo estar,
fingindo não pensar,
fingindo entender,
fingindo não sentir,
fingindo não se importar.
Vivendo o mesmo sentimento contido
E fingindo.
E dois corações rumando para o mesmo sentido
Mesmo sem perceber..
Mais indo.
julho 14, 2011
Claquete
Dormiria a pensar em cada detalhe de sua vida pífia e minúscula
Em cenas ridículas que ela mesma criara sobre decepções
Talvez com mais drama do que de costume
Mas no peito a mesma dor
Uma dor intrínseca, que ardia e modificava-a
E algumas mágoas que lhe arrancara o sono.
Balbucias noturnas
Quero deleitar-me.
Acordar e sorrir por motivo algum.
Respirar fundo e acreditar que tudo ficara bem,
Mesmo que o tempo mostre-me o contrario.
Afinal, o sol sempre acaba por aparecer
O sol sempre aparecerá...
Acordar e sorrir por motivo algum.
Respirar fundo e acreditar que tudo ficara bem,
Mesmo que o tempo mostre-me o contrario.
Afinal, o sol sempre acaba por aparecer
O sol sempre aparecerá...
maio 13, 2011
Calejada
Estranho saber que quilômetros suportam tantos sentimentos incompletos.
Ele continua a invadir-me os sonhos
Como a quem procura corações para partir.
E eu finjo que ele é tudo o que eu procurava...
Até o dia amanhecer.
março 15, 2011
Li palavras iguais
E embora tenha dor no meu peito
Ainda resistirei a sua falta
E a sua incompreensão diante do meu ciúme
Regurgitarei ao vento todas as suas teimas e as suas dispersões
Não costurarei a dormir como outrora o fizera
Terei crises existenciais e a culpá-lo-ei
Omitindo todo o sentimento de tristeza e arrependimento
Choramingando a cada vez que recobrar lembranças de peripécias e cumplicidade
E rirei desta cena ridícula a mim protagonizada
Rindo e arrependendo-me
Da mesma forma que ainda a amo.
março 10, 2011
Agora que meu dia acabou
E que pulasse e se partisse em mil pedaços
Eu nao me importaria, nunca me importei.
Ouvia Billie Holiday e fumava o resto do ultimo cigarro da manhã
E indagava-me sobre as minhas escolhas
Sobre você e sobre como havia-me deixado estar aqui
fumando e indagando-me
E a vida parecia ironicamente fatidica.
E eu nao me importava, nao me importava...
Eu nao me importaria, nunca me importei.
Ouvia Billie Holiday e fumava o resto do ultimo cigarro da manhã
E indagava-me sobre as minhas escolhas
Sobre você e sobre como havia-me deixado estar aqui
fumando e indagando-me
E a vida parecia ironicamente fatidica.
E eu nao me importava, nao me importava...
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